19.9.11

Feirense - Porto: opinião

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- Começo com uma pequena reflexão, que é aquela que mais me sobra da exibição portista... A natureza complexa do futebol torna muito difícil podermos ser concretos e objectivos sobre a utilidade de várias coisas. Normalmente, usamos a percepção, forçamos relações de causalidade, mas, também, recorremos com frequência a regras, pequenos dogmas, sobre o que é "jogar bem", sem que, de facto, tenhamos certezas objectivas sobre essas considerações. No caso do Porto, há várias perguntas a sobressair do que se viu em Aveiro, numa exibição que, muito claramente, foi intencionalmente arrojada na inovação em relação àquilo que foram comportamentos e rotinas de jogo desta equipa, ao longo dos últimos 15 meses:

 Qual a utilidade real do exacerbar dos movimentos interiores de James? Será benéfico fazer a equipa orientar-se de forma tão marcada para o corredor central, e espaço "entrelinhas"? O "falso 9", que efeitos práticos realmente tem? Qual o impacto da perda de um elemento deliberadamente mais posicional ao nível dos equilíbrios na zona mais recuada?

... tudo isto me faz voltar a sublinhar a necessidade da centralização na dúvida como método, e no objectivo do jogo, o golo, como único foco fundamental para o que é, ou não, "jogar bem". E, se nos centrarmos na dúvida, facilmente concluímos que pode ser um risco a aceleração de um processo de inovação sobre uma equipa que, com grande certeza, vinha sendo muito competente.


- Entrando no campo mais específico, há algo de estranho no que se observou. Vitor Pereira abdicou do médio posicional, entre Fernando e Souza, escolheu Moutinho, e a equipa tirou frutos dessa situação. Tirou frutos, porque conseguiu aquilo que raramente se vê, que é construir com segurança pelo corredor central. Não teve de ligar com os extremos, ou sair pelos laterais. Não, a dinâmica dos três médios chegava para fazer a bola chegar, com elevada fluidez, à segunda linha de construção. O "estranho", é que este factor costuma ser suficiente para vermos as equipas encurralar territorialmente os adversários e, inevitavelmente, ir acumulando ocasiões de golo. Ora, o Porto, na primeira parte, teve 1 ocasião. Ou seja, algo de errado se passou no "assalto" à área do Feirense. O que se viu foi uma grande confluência de jogadores no corredor central. James nunca abriu, e jogou mesmo como elemento livre, aproximando-se de Kleber, ou indo mesmo para próximo de Cristian Rodriguez. Por outro lado, esta centralização do extremo não teve complemento em termos de largura. Tanto os médios permaneceram centrados nas dinâmicas interiores, como os próprios laterais fizeram frequentemente movimentos por dentro. Ora, e mantendo-me no campo da dúvida, não é certo ou impossível que esta centralização sobre o corredor central torne as coisas mais difíceis. Pode haver uma grande capacidade especifica de criar soluções de rotura dentro destes comportamentos. Pode, mas não é, em teoria, muito provável. Centralizar as acções é diminuir o campo de ataque, reduzir espaços e, logicamente, tornar mais fácil a tarefa de quem defende. E foi precisamente isso que aconteceu...

- Sobre James, o protagonista principal deste processo de centralização do jogo, entendo que, de facto, pode e deve ser potenciado pela sua capacidade em posse, mas que isso não deve acontecer em terrenos muito próximos do avançado. Porque, a sua presença mais constante nesse espaço retira imprevisibilidade à exploração do espaço "entrelinhas", e porque para o próprio se torna mais difícil executar a partir de espaços tão fechados. Ou seja, o que me parece é que a sua especificidade pode ser útil para criar focos de atracção em zonas mais baixas (sobretudo quando joga à direita), mas que a sua qualidade é também potenciada em acções mais à largura (sobretudo à esquerda).

- Na segunda parte, o jogo alterou-se ligeiramente. O Porto piorou na sua construção, tornou-se mais ansioso e cometeu mais erros, mas também se aproximou mais do golo, fundamentalmente porque teve mais largura, e porque foi mais reactivo às incidências do jogo, aproveitando pequenos momentos de desorganização no adversário. Mas também se expôs em demasia, nomeadamente apresentando-se mais desorganizado e invulgarmente desequilibrado na recta final do jogo. Aqui, uma reflexão para notar a importância de ter um elemento mais posicional no meio campo. A mobilidade dos médios trouxe benefícios em termos de dinâmica de construção, mas fez com que se perdesse também essa noção constante da necessidade de manter equilíbrios junto da última linha. O Porto não sofreu, mas dificilmente manterá esse registo defensivo se repetir alguns erros. Nota, ainda no mesmo âmbito, para o efeito das sucessivas alterações estruturais na segunda parte. É um risco que se vê frequentemente, que se percebe, mas que raramente é um risco verdadeiramente calculado. Mexer muito, destrói referências, distorce tendências e acrescenta ruído. O ideal, é controlar tendências e não ficar vulnerável ao ruído.

- Sobre o "falso 9", protagonizado na segunda parte por James, importa também reflectir. O futebol tem mais de 100 anos e, ao longo desse tempo, os finalizadores tiveram sempre uma relação estreita com o sucesso colectivo. Parece-me perigoso desvalorizar repentinamente a relevância dessa função sem uma forte base de sustentação. O exemplo que inspira esta iniciativa, todos sabemos, é o do Barcelona. Mas, no Barcelona, para além da excelência técnica dos seus intervenientes, há uma enormidade de movimentos que potenciam a fase de finalização. Movimentos muito difíceis de repetir, mas que acabam por fazer com que o "falso 9" (Messi) marque 30% dos golos da equipa. Ou seja, na prática, jogue mais à frente ou mais atrás, o finalizador mantém-se. Talvez seja mais realista, neste processo de inspiração, olhar para a Roma, que tem uma excelente fase de construção, um "falso 9" (Totti), mas fez apenas 2 golos em 4 jogos oficiais. Ou seja, parece-me uma solução possível mas de enquadramento muito complicado, sobretudo quando não está Hulk.

- Finalmente, sobre o Feirense, curiosamente não destaco muito os méritos defensivos da equipa, porque não  me pareceu muito capaz de filtrar a construção portista, o que, normalmente, ser-lhe-ia fatal. Mas destaco as boas combinações no flanco direito, colocando por vezes 4 jogadores nesse processo e construindo muito boas situações de cruzamento. Outra nota, para as situações de transição a partir de lances de bola parada defensiva. É outro tema em que se invocam frequentemente certezas onde elas não existem: é melhor defender zona ou homem a homem? Uma resposta generalizável, ninguém tem. O que se conhecem são as potencialidades que cada método oferece e, entre elas, está a possibilidade de, defendo hxh, deixar mais gente na frente. Foi a partir dessa característica que o Feirense se aventurou até à sua melhor ocasião no jogo. Nota para Rabiola, que justifica acompanhamento (Mangala que o diga...).

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